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14 de jul. de 2011

QUEM VAI LEVAR O CARREFOUR, COM ABILIO FORA DO PÁREO?

portal Exame 13/07/2011 - Marcio Orsolini

Com a rejeição da fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour, por parte do grupo Casino, as operações brasileiras da rede francesa voltam ao centro de disputa entre os varejistas. Os mais cotados para uma associação com o Carrefour seriam a rede americana Walmart e a rede chilena Cencosud.

O próprio Carrefour afirmou que, com o fim das negociações com Abilio Diniz, continua aberto a novas propostas. Procurados por EXAME.com, Walmart, Cencosud e Carrefour não quiseram comentar especulações de mercado. Mas é fato que o cenário vai esquentar.

“O Walmart vai partir com mais agressividade para o mercado brasileiro e o Carrefour Brasil já se mostrou instável”, avalia o consultor Eugênio Foganholo. A rede americana, a maior do mundo, elegeu o Brasil como prioridade. Em 2010, seu faturamento global foi de 420 bilhões de dólares, mais que o triplo do faturamento do Carrefour, o segundo maior varejista do mundo. No país, ocupa a terceira posição do setor. No ano passado, o Walmart também enfrentou problemas no país, com a troca de presidente.

Quem sofreria com a operação é o Casino, que lutou contra a associação entre o Pão de Açúcar e o Carrefour. “Ele enfrentaria um Walmart mais forte no Brasil e teria dificuldades para competir”, diz o consultor Cláudio Felisoni.

Azarão chileno

A Cencosud já tem participação no varejo brasileiro e afirmou que pretende aumentar essa fatia. A rede chilena é a terceira maior varejista da América Latina. Em outubro passado, desembolsou 1,4 bilhão de reais na compra da empresa mineira Bretas, então a sétima maior rede de supermercados do país, com faturamento de 2 bilhões de reais. Seis meses antes, já havia comprado a Perrini, que tem sete lojas em Salvador, por 30 milhões de reais. Sua maior operação, porém, ainda é a G.Barbosa, quarta colocada no ranking de supermercadistas do Brasil. "O bom desempenho da G.Barbosa conta à favor da Cencosud", pondera o consultor José Lupoli Jr.

Depois das aquisições, os chilenos cresceram seu faturamento em 41%, aos 3,5 bilhões de reais em 2010. “O Walmart, no entanto, é um grupo com mais poder de investimentos, mas em termos de concentração de mercado, seria melhor com o Cencosud”, pondera Lupoli.

Apesar de não comentar o futuro de suas operações, a instabilidade do Carrefour no país veio à tona quando foi descoberto o rombo de 1,2 bilhão de reais no ano passado. O rombo aumentou a pressão de um grupo de acionistas para que o Carrefour vendesse a operação brasileira. Embora o problema seja contábil e as vendas da rede francesa, no Brasil, tenham crescido em 2010, esses acionistas desejam resgatar o dinheiro que investiram na companhia – nem que, para isso, ela tenha de vender ativos.

Entregando os anéis

Não seria a primeira vez que o Carrefour abandonaria um mercado. Para reforçar o caixa, a varejista francesa vendeu as operações tailandesas em novembro para, veja só, o concorrente Casino, por considerar que elas não eram rentáveis. Esse foi o oitavo país do qual o Carrefour saiu nos últimos sete anos.

Para justificar a decisão, a rede afirmou que sua perspectiva de crescimento no país não condizia com a estratégia de focar em países onde poderia ocupar a liderança. O caso brasileiro, no entanto, reforçaria a má gestão da empresa -- um ponto criticado por analistas -- e poderia colocar ainda mais em risco o futuro do Carrefour.

Ao forçar Abilio a abandonar as negociações, o Casino pode ter aberto a porta para que seus rivais cresçam no Brasil. Se isso acontecer, o grupo francês terá trocado um sócio indócil por uma concorrência feroz. Só Jean-Charles Naouri, presidente do Casino, poderá dizer qual é a melhor opção nesse caso.

DESISTÊNCIA DO BNDES PODE SER BARREIRA À FUSÃO "CARREÇÚCAR"

jornal DCI 12/07/2011 - Bruno Cirillo
O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) teria desistido de apoiar Abílio Diniz na empreitada pela criação do "Carreçúcar", divulgou ontem o colunista Ancelmo Gois, em seu Twitter - apesar de a instituição não ter confirmado nada, até o fechamento desta edição. Ainda na esfera financeira, o BTG Pactual, envolvido no caso, estaria atrás de acionistas do Grupo Pão de Açúcar (GPA) para convencê-los de que a fusão com o Carrefour é boa para todos.

Na última sexta-feira, circulou a informação de que banqueiros do BTG procuravam cerca de 50 investidores minoritários do GPA para defender a união entre os supermercados. Enquanto isso, agentes financeiros do Casino (sócio do GPA, mas contrário à fusão) buscavam os acionistas para pregar contra a proposta de Diniz. Os executivos do BTG teriam se espantado com a reação do presidente da companhia francesa, Jean-Charles Naouri.

Por se tratar de um rumor, o banco de investimento não confirmou nem negou as informações. À colunista Mônica Bergamo, porém, banqueiros do BTG disseram que a reclamação de Naouri já era esperada, "mas num tom bem abaixo". Na semana passada, o empresário veio da França ao Brasil para defender que o BNDES não participe da fusão. Além disso, passou os dias aqui a trocar acusações com o seu sócio, Diniz.

Proposto pelo empresário brasileiro, o casamento apelidado de "Carreçúcar" criaria a segunda maior companhia do varejo global, ao custo de uma concentração de 27% no setor varejista do País - chegando a 69% (um monopólio) em São Paulo. Como a rede Casino tem direito de assumir o controle do GPA no ano que vem, o principal executivo da companhia francesa se posicionou contra a realização do negócio.

Na proposta de fusão, desenhada pela consultoria Estáter, as instituições financeiras BNDES (por meio do braço BNDESpar) e BTG Pactual entrariam com R$ 4,5 bilhões e deteriam, respectivamente, 18% e 3,2% do Novo Pão de Açúcar (NPA). O investimento do BNDES (cerca de R$ 4 bilhões) seria essencial para a realização do negócio. Contudo, o banco já havia divulgado que só analisaria o caso após Diniz e Naouri terem entrado num consenso. No NPA, o sócio brasileiro ficaria com 16,9% das ações, enquanto o Casino teria 34,4%.

8 de jul. de 2011

PARA ACORDO SAIR, HIPERMERCADOS PODEM TER OUTRO DESTINO

jornal Valor Econômico 07/07/2011 – Cynthia Malta e Adriana Mattos

Para criar a megavarejista Novo Pão de Açúcar (NPA), que uniria as operações do grupo Pão de Açúcar e do Carrefour, Abilio Diniz, principal acionista da empresa brasileira, precisa da aprovação do sócio francês Casino, comandado por Jean-Charles Naouri, que vem criticando firmemente a proposta. Para que as conversas evoluam, ofertas que agradem ao Casino estão sendo estudadas, conforme apurou o Valor com pessoas próximas à negociação.

Uma proposta que poderia ir para a mesa é a separação do negócio de hipermercados do Carrefour das outras operações, "já que Naouri diz que não gosta de hipermercados", diz uma fonte.

Nesse caso, segue o raciocínio, os hipermercados do Carrefour poderiam juntar-se aos hipermercados do Casino, criando uma operação separada. No Casino, o negócio de hipermercados representa 29% das vendas realizadas na França. No Carrefour, essa fatia é bem maior, de 62%.

Naouri tem dito - e não está sozinho nessa avaliação - que o modelo de hipermercados está ultrapassado com a mudança no perfil de consumo no mundo. Em várias partes do mundo, o consumidor tem preferido comprar em lojas menores.
Do lado brasileiro, uma fonte avalia que há espaço para lojas maiores e que os hipermercados do Carrefour localizados na Europa - alguns com 16 mil metros quadrados de área - poderiam ser transformados em minishopping centers.

O mix desse tipo de loja não abrigaria apenas alimentos, produtos de limpeza, eletrodomésticos e lojas de serviço, como farmácias e óticas. Uma parte importante dentro desse modelo de minishopping seria a venda de roupa e artigos para a casa que o consumidor, atualmente, costuma encontrar em lojas de produtos importados.

O Carrefour está tocando um programa de € 1,5 bilhão para reformular seus hipermercados. Batizados de Carrefour Planet, as megalojas estão sendo dotadas de butiques de produtos orgânicos, de moda, beleza, congelados, artigos para casa e de lazer, além de serviços, como cabeleireiro, consultoras de maquiagem e até creche para crianças. Algumas lojas têm mostrado resultados, mas há dúvidas entre os analistas se esse programa será suficiente para que o Carrefour volte a mostrar vigor.

No primeiro trimestre, enquanto as vendas do Carrefour cresceram 3,9%, as do Casino deram um salto de 18,8% - em grande parte devido à consolidação da Casas Bahia nas contas do grupo Pão de Açúcar.

Segundo informações apuradas pelo Valor no mercado, a rede Dia, terceira maior varejista de descontos do mundo, também seria um ativo que poderia ajudar a atrair o interesse do Casino na criação do Novo Pão de Açúcar. No Brasil, o Dia tem 409 lojas, todas no Estado de São Paulo, mas há um plano agressivo de abrir 50 lojas por ano no Brasil. No mundo, o Dia registrava 6,37 mil lojas ao fim de 2010 e vendas totais de € 9,6 bilhões.

Mesmo tendo ido para a bolsa espanhola, o Dia ainda poderia fazer parte de uma negociação com Naouri, já que a varejista de descontos ainda tem dentre seus acionistas o fundo Blue Capital, por exemplo, que é interlocutor do lado brasileiro nas negociações para a criação do NPA. Existe o receio, porém, que o Dia seja comprado, no ambiente da Bolsa de Madri, e acabe nas mãos de um concorrente internacional, como o grupo alemão Aldi, que ao lado da também alemã Lidl domina o negócio de varejo de descontos no mundo.

A resposta do Casino à proposta de criação do NPA deve ser dada em 2 de agosto, quando o conselho de administração da Wilkes, holding que controla o grupo Pão de Açúcar, reúne-se em São Paulo.

EMISSÁRIO DE ABILIO DINIZ VAI A PARIS TENTAR CONVENCER NAOURI

jornal Brasil Econômico 07/07/2011 - Ricardo Rego Monteiro

Mesmo com a piora na relação comos sócios franceses do Casino, o empresário Abilio Diniz ainda tem esperanças de solucionar até o próximo dia 2 de agosto o impasse quanto à fusão do Pão de Açúcar com a também francesa Carrefour. Está marcada para este dia a assembleia de acionistas da Wilkes, a holding por meio da qual Diniz e Casino dividem o controle da rede supermercadista brasileira. O empresário vai enviar nos próximos dias a Paris um emissário com a árdua missão de obter do Casino o sim à fusão.

O emissário, cujo nome não é revelado, terá que convencer o presidente do conselho do Casino, Jean-Charles Naouri, das vantagens do negócio para o sócio francês. Um interlocutor ligado diretamente à fusão diz que Naouri permanecerá com influência maior do que Diniz no futuro conselho do Novo Pão de Açúcar (NPA), embora o grupo francês tenha diluída a participação atual na futura holding que congregará não só os ativos brasileiros, mas também do Carrefour e do próprio Casino.

Pelo desenho do negócio, o Casino dividiria com Diniz, o banco BTG Pactual e o BNDES o controle da NPA, que deteria 50% das operações conjuntas de Carrefour e Pão de Açúcar no Brasil. Os outros 50% seriam detidos pela matriz francesa do Carrefour. Em contrapartida, caberia à NPA 11,7% do capital da holding Carrefour França. Tal estrutura permite ao BNDES justificar os € 2 bilhões que botaria no negócio como uma espécie de financiamento à internacionalização do Pão de Açúcar. Diniz, por sua vez, já disse que a operação é uma oportunidade de inserir produtos brasileiros na Europa, via Pão de Açúcar.

Para o Casino, sob o aspecto financeiro, o mesmo interlocutor afirma que, pelo desenho original do negócio, Naouri asseguraria ainda uma geração de valor maior do que a atual para os acionistas do Casino—seja com o aumento do patrimônio, com a incorporação dos ativos do Carrefour, ou com um inevitável incremento dos dividendos futuros. Logo, avalia a fonte, ainda haveria uma chance pequena, ainda que remota, de convencê-lo das vantagens da operação para todos os envolvidos. O Casino, porém, não reagiu bem à proposta e decidiu apelar para uma arbitragem internacional para impedir qualquer acordo, alegando que seus sócios brasileiros não informaram sobre as negociações que estavam sendo realizadas.

“A negociação secreta foi um ato ilegal. Naturalmente, não está em conformidade com as práticas adequadas e com a ética nos negócios”, disse Naouri ao jornal Estado de S. Paulo. Naouri ressaltou que se reuniu com o fundador do Pão de Açúcar no dia 15 de abril e perguntou se Diniz estava negociando alguma coisa. “Ele me respondeu formalmente que não tinha nada a dizer”.

“A intenção era procurar o Naouri no momento certo, depois das conversas com os controladores do Carrefour”, afirma a fonte. “A estratégia previa uma série de movimentos graduais. Antes, precisaríamos obter a concordância do Carrefour. O problema é que, quando ainda conversávamos com um dos acionistas do Carrefour, aconteceu aquilo que não podia acontecer: a conversa vazou para Naouri, que se sentiu traído.”

Desenhada pela Estáter, butique financeira que tem conduzido boa parte das maiores fusões dos últimos anos no país, a estratégia previa o mesmo tipo de entendimento com Naouri, a portas fechadas. Agora, lamenta a fonte, o consenso teria ficado mais difícil, até pelo movimento dos papéis do Pão de Açúcar na Bolsa. A intenção, no entanto, é conseguir pelo menos um encontro com Naouri, de modo a refazer o trajeto negocial pensado originalmente.

“A operação de modo algum pode ser considerada desfavorável para o Naouri. Embora o Casino fique com participação menor do que detém atualmente, ele continuará com mais influência do que o Abilio na futura empresa. Ao Abilio caberá apenas a gestão das operações no Brasil, enquanto Naouri teria uma fatia maior da NPA, além do poder de indicar dois nomes para o conselho mundial do novo grupo.”

DINIZ DESAFIA CASINO A EXPLICAR POR QUE FUSÃO NÃO É BOA IDEIA

jornal Valor Econômico 07/07/2011 - Adriana Mattos, Graziella Valenti e Cynthia Malta

O empresário Abilio Diniz espera que, em 2 de agosto, data da reunião do conselho de administração da Wilkes, holding que controla o Grupo Pão de Açúcar, o Casino explique por que a criação do Novo Pão de Açúcar (NPA) e a combinação com os ativos do Carrefour não são uma boa ideia. Essa resposta abriria a possibilidade de negociar com o presidente do Casino, Jean-Charles Naouri, que chama a proposta de "expropriação" de seu direito de assumir o controle da maior varejista do país em 2012. Diniz não acredita em um desfecho diferente da aprovação da operação. "Ele [Casino] vai ter que negociar."

Diniz, ao lado da filha Ana Maria Diniz, recebeu o Valor ontem na sede da Estáter, consultoria financeira que o ajudou a costurar a proposta de associação com o Carrefour, ao lado do BTG Pactual e do BNDES, para uma entrevista de duas horas.

O conselho do Carrefour já aprovou a associação no dia 3 de julho. A demora de um mês para levar a proposta à Wilkes deve-se à decisão da Companhia Brasileira de Distribuição (CBD) de encomendar estudos a três consultorias para avaliar a operação. O grupo precisa de tempo para analisar a questão, afirma Diniz.

As avaliações das consultorias devem ser enviadas aos conselhos consultivo e fiscal da CBD e aos acionistas da Wilkes, antes do dia 2 de agosto. "Não adianta dizer que é um negócio muito honesto. Honesto é que nem virgindade, ou é ou não é. O 'management' [da CBD], o conselho consultivo e o conselho fiscal vão se pronunciar", afirma Diniz.

A seguir os principais trechos da entrevista:

Valor: Por que existe essa demora de quase 30 dias para a realização da reunião de acionistas da Wilkes, em 2 de agosto? E a proposta a ser avaliada será a mesma já aprovada pelo Carrefour?

Abilio Diniz: Esse negócio foi demorado e difícil de fazer. E eu não estava acostumado a trabalhar com essa estrutura. Tudo o que fiz foi com o Pão de Açúcar, mas nessa proposta não usei ninguém da companhia. Eu fiz com a Estáter e alguns advogados porque eu não queria gerar contestação. Quanto à proposta, será exatamente a mesma.

Valor: Essa demora não pode ter impacto no negócio? O sr. não teme que esse período de espera possa ter impacto nas ações do Pão de Açúcar? A ação está caindo...

Diniz: Não, todos os acionistas já entenderam a questão. A ação está caindo por conta da insegurança. E quanto a esse período, ele é preciso porque eu tenho que dar prazo para eles [a CBD] avaliar a proposta. O grupo contratou consultores como McKinsey, Accenture e Ebeltof. Eu não quero que a companhia acredite no Abilio só. O negócio tem que ser honesto. A CBD tem que dizer aos acionistas se isso é um bom negócio ou não.

Valor: O artigo a ser questionado pelo Casino, número 2.1.1 do acordo de acionistas, trata do controle de Wilkes, que precisa ser preservado. O Casino diz que isso não aconteceu.

Diniz: E qual foi a medida que tomei agora que prejudica o controle?

Valor: Até agora nada, mas se for aprovada, ela fere o artigo...

Diniz: O que eu fiz? Fiz um trabalho extenuante. Costurar esse trabalho que foi feito não é fácil. e entendo por quê. É que as coisas lá [no Carrefour] não estão dando certo. E o que se passou na cabeça do Abilio? Eu levo essa proposta até o momento que sinta que esse negócio é viável. Pensei: "Deixa eu ver se esse negócio para em pé". Até terça-feira da semana passada, quando estava na França, quando recebemos a proposta, eu não tinha certeza de que esse negócio pararia de pé. As discussões de detalhes do negócio é uma coisa completamente maluca. Quando a coisa se arrasta demais você fica até com dúvida. O que será que está por trás, porque é que não estão aceitando?

Valor: Por quê?

Diniz: Eu queria ter comunicado o Jean-Charles e ter levado para o Jean-Charles antes desse momento. Eles [O Carrefour] fizeram duas reuniões de "board" e tinha que passar pelo menos na primeiro, para ter certeza de que [a operação] poderia acontecer. Se não ninguém se responsabilizaria por isso lá. É que a situação está complicada por lá, há muita pressão. Eu queria falar com o Jean Charles antes, mas fui aconselhado a esperar passar pelo "board" do Carrefour para ter algo concreto antes de chegar no Jean-Charles. Consultei sobre isso e me disseram: "Fica tranquilo, não abaixa a caneta". E hoje penso que pela forma como o Jean-Charles reagiu à proposta, acho que fiz a coisa certa.

Valor: Mas se é para receber uma resposta negativa do Casino, não era melhor receber logo um "não" para evitar esse desgaste de imagem?

Diniz: Eu acho que sim. Mas há uma questão interessante aí agora. Para não ter negócio, o Jean-Charles vai ter que explicar por que não quer o negócio. Eu não vou romper contrato, mas ele terá de passar pelos rituais da governança corporativa e com o mercado observando. Quando falamos da operação, ele dizia que não era bom negócio de fusão com o Carrefour porque a Europa estava toda mal. Isso foi há uns seis meses. Eu disse que tudo bem, mas eu acho que a coisa não é assim porque o mercado já está "precificando" isso. Agora, quero deixar claro que não há qualquer cláusula que me impeça de negociar à vontade e quanto eu quiser.

Valor: O sr. não acredita que o ônus no final das contas ficou maior para o sr. do que para ele? Há uma simpatia do mercado em relação ao direto dele de exercer o controle a partir de julho de 2012.

Diniz: O que ele comprou foi o direito de, em 2012, pela troca de R$ 1 por uma ação da Wilkes, a possibilidade de consolidar [os resultados] da companhia [Grupo Pão de Açúcar] no Casino. Eu no final fiquei incomodado com o negócio e disse: "Não vou fazer. Eu quero continuar levando a companhia, que tem o meu DNA". Mas disse que aceitaria se eu pudesse administrar a companhia e acertamos. Eu disse há dois anos que teríamos que rever a nossa posição, que não daria para continuar do jeito que estava, principalmente depois das negociações de Casas Bahia e Ponto Frio. Nós não podemos aumentar endividamento porque isso os afeta. Quando eles consolidam o endividamento na empresa aberta dá mais de três vezes o Ebitda. Além disso, também estamos no limite e não podemos mais emitir ações preferenciais. Ele tem que dizer: "O negócio não é bom por isso e por isso". E se não quiser por causa de controle, então está bem, não vou discutir.

Valor: O sr. tentou mudar o acordo de acionistas?

Diniz: O que eu dizia para ele sobre a estrutura de capital: vamos deixar tudo como está. Vamos continuar com o "co-control" [o Casino não assumiria o controle a partir de julho de 2012]. Ele [Casino] continuaria do mesmo jeito. Naquela época, eu não tinha nenhuma coisa concreta na cabeça, mas queria conversar. Dar à companhia o direito de crescer. Poderíamos pensar em algo, converter tudo em [ações] ordinárias, dar voto para as preferenciais, sei lá. Ele [Naouri] precisa sentar e explicar para mim aonde ele perde dinheiro com esse negócio [proposta de combinação com o Carrefour]. Primeiro, precisa mostrar onde o negócio é ruim.

Valor: Esses três estudos sobre a criação da nova empresa que o Pão de Açúcar está pedindo às consultorias, o sr. vai mandar também para o Casino?

Diniz: Não sou eu, é a companhia [Pão de Açúcar]. Vão mandar para todo mundo, inclusive para mim.

Valor: Quando?

Diniz: Não sei. Eles pediram 25 dias. Isso é coisa para você perguntar ao Enéas [Pestana, presidente do Pão de Açúcar]. Eu não mexo com ele. O cara já está tenso demais. Vou contar uma coisa para vocês. Eles [Casino] ligaram para o Enéas no domingo à noite querendo conversar. Mas ele preferiu deixar para falar na segunda-feira, de dentro da companhia. Então, na segunda-feira, eles ligaram para o Enéas, que estava na plenária [reunião da diretoria com funcionários]. Ele só voltou no fim da reunião. Branco, com os olhos vermelhos, tenso, uma barbaridade. Eu perguntei: muito ruim? Ele disse: "Nossa, uma pressão..." E nós ali, todo mundo no palco, 400 pessoas... O que nós fizemos? Nós levantamos. Eu falei que era um momento de muito estresse e muita pressão. E disse: "Vamos dar as mãos e rezar todo mundo junto, pedindo a Deus que nos ilumine". Eu não gosto nem de falar que eu começo a chorar.

Valor: Nessa plenária houve muitas perguntas sobre o negócio?

Diniz: Não, ninguém pergunta. Eu disse que estamos trabalhando e que eles devem trabalhar, não devem fazer conversa de corredor e devem confiar.

Valor: E se o acordo não sair? E se no dia 2 o Casino falar que não quer negócio? O que pensa em fazer, já que a convivência ficou difícil?

Diniz: Honestamente eu não trabalho com a possibilidade deles dizerem não. Uma pessoa quando diz "não" tem que explicar. E não é possível que seja tão irracional e irresponsável que não ajude a encontrar uma solução. Ele pode dizer: me dá a Malásia, me dá a Indonésia...

Valor: Ele diz que não quer nada além de controle.

Diniz: Escuta, você tem filhos? O que faz quando ele não quer comer de jeito nenhum? Vai ter que fazer. Eu não vou obrigá-lo, mas ele vai ter que explicar. E aí começam a surgir oportunidades de negociação. Ele vai ter que negociar. Eu nunca vi algo assim.

Valor: E onde há espaço?

Diniz: Mas ele não senta para negociar. Eles [Casino] nomearam o Jack Levy, do Goldman Sachs. Contratou o Levy para falar com o Pércio [de Souza, sócio da Estáter]. Eu pensei: agora temos um negociador. Mas não o achamos mais. Não tem interlocutor. O Pércio consegui falar com ele ontem [terça-feira].

Valor: O que ele falou ao Pércio?

Diniz: Falou que o Jean-Charles conversa com o Abilio se ele desistir do Carrefour e for para 2012. Aí não tem jeito.

Valor: E, no dia 2 de agosto, se ele abrir espaço para negociação? O que o sr. colocaria na mesa?

Diniz: Primeiro eu agradeço aos céus e acendo uma velinha para Santa Rita. Depois eu digo: "O que você quer?" Não vou eu apresentar as ideias. Agora, se ele disser que quer 50% da companhia, não. Ninguém aceita. Consolidação [dos resultados da GPA no Casino] ele não vai ter. O resto nós conversamos.

Valor: Na proposta aprovada pelo Carrefour, os acionistas da NPA teriam poder de voto restrito a 15%. E se tirar a restrição dos 15%?

Diniz: Duvido que o mercado aceite tirar os 15%. Estamos compromissados com isso. Todos nós sabemos que um dos motivos de a nossa ação ser de curto prazo é que ninguém fica no investimento com medo de 2012. O Casino vai vender? O que ele vai fazer? O que dá segurança para o mercado é eu ter mais preferenciais do que ordinárias. Eu estive com vários fundos, gente da pesada, que dizem que se eu quiser comprar o Casino ou recomprar o controle estão comigo.

Valor: O sr. pensa em comprar a parte do Casino?

Diniz: Até pensamos nisso, se ele quiser sentar na mesa. Em abril, quando ele disse, "Então eu vou para briga", eu falei que não queria brigar com ele. E disse: "Tem algo que a gente possa fazer? Algo que a gente possa negociar, mesmo comprar a sua parte, tem alguma chance". Então ele surtou quando eu disse que queria comprar a parte dele.

Valor: O sr. se arrependeu de ter fechado o acordo com Casino em 2005?

Diniz: Não me arrependo de nada que faço e tenho que aceitar as consequências. Eu não vendi o controle, eu vendi a consolidação. Aí dizem que consolidação é controle. Isso é semântica.

Valor: Se o sr. estava buscando uma maneira de viabilizar o crescimento sem se amarrar com o endividamento porque o Carrefour e não o Walmart, por exemplo?

Diniz: Walmart vende US$ 400 bilhões. É coisa de americano. O Carrefour tem uma marca e uma bandeira extraordinárias. O que precisa é "management". E outra coisa, está muito barato.

Valor: Mas e se no dia 2 o Casino falar não sem negociação? O sr. retira a proposta, vai para a arbitragem ou rompe o acordo?

Diniz: Eu não tenho essa programação. Tem um bando de advogados pensando nisso, mas não estou nem querendo ouvir nada disso.

Valor: Quem poderia entrar no lugar no BNDES?

Diniz: O BNDES vai continuar até o fim. O banco está muito tranquilo agora.

Valor: Mas o banco disse que só fica se houver acordo.

Diniz: Eu não vejo outra alternativa [só o acordo]. Mas o André Esteves [controlador e presidente do BTG Pactual] já disse que tem mais dinheiro e que tem uns fundos interessados. Eu não tenho problema nesse campo [financiamento]. Eu só preciso que o Jean-Charles caia na real. O mercado está apoiando essa operação. Estou apostando que a ação [do Pão de Açúcar] vai sair de R$ 66 para R$ 100.

Valor: O sr. não tem medo que esse clima afeta o Pão de Açúcar?

Diniz: Não. Nós conseguimos blindar a companhia.

CARREFOUR ADMITE QUE FUSÃO PODE NÃO SE REALIZAR

jornal Brasil Econômico 06/07/2011 - Françoise Terzian

Acendeu o alerta vermelho dentro do Carrefour Brasil. As duras críticas que Jean-Charles Naouri, presidente e maior acionista individual do grupo Casino, fez ao concorrente francês — que ganharam uma conotação de ameaça ao defini-lo como “cúmplice” da violação de um acordo celebrado com o Pão de Açúcar em2005—foram mal recebidas pela cúpula do Carrefour no país. A declaração soou como um aviso de que o noivado entre o Carrefour e o Pão de Açúcar está fadado ao fim.

Enquanto a troca de farpas estava limitada a Naouri e Abilio Diniz, presidente do conselho do grupo Pão de Açúcar, ainda havia a esperança de que as duas partes poderiamse acertar no final, apesar dos obstáculos. Ontem, no entanto, esta certeza foi reduzida. Se a situação já estava difícil antes, considerar uma fusão neste delicado momento tornou-se algo praticamente impossível.

Os obstáculos que surgem a cada dia, vale lembrar, parecem estar preocupando mais o Carrefour França que a operação brasileira. A cúpula da subsidiária acredita estar apta a seguir sua caminhada sozinha.

Contudo, não é esse o desejo da matriz. Para tentar reverter uma provável “morte anunciada” da fusão, o presidente mundial do Carrefour, Lars Olofsson, pode desembarcar a qualquer momento no Brasil. Comenta-se que ele poderá chegar ao país entre hoje e sexta-feira, embora não exista uma confirmação oficial de sua viagem por parte da companhia.

O que se sabe é que Olofsson precisa vir brevemente ao Brasil se quiser desfazer o mau estar deixado por Naouri após reunião com Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O francês do Carrefour deve seguir agenda parecida com a de Naouri, o que deve incluir uma reunião com Coutinho.

A situação entre as duas redes francesas se agravou depois que o conselho do Carrefour anunciou, na segunda-feira, que aprovava a fusão com o Pão de Açúcar. A declaração só serviu para irritar ainda mais o já enfurecido Naouri.

Em resposta, ontem o Casino soltou um comunicado em que chama a atitude do Carrefour de hostil e critica o fato de que o concorrente, presente no Brasil há anos e ciente do acordo de lealdade mútua com Diniz, vinha conduzindo negociações secretas durante meses, tudo em busca da obtenção do controle da Companhia Brasileira de Distribuição (CBD).

Se o Carrefour não tinha intenções hostis, diz o Casino em comunicado, ele deveria ter sido informado desde o começo e de forma integral das negociações, uma vez que a empresa presidida por Naouri detém o controle conjunto da companhia ao lado de Diniz.

O Casino diz ainda estar confiante de que os tribunais confirmarão sua posição e cita o despacho do presidente do Tribunal de Comércio de Nanterre de 24 de junho, que teria sugerido que o Carrefour teria ajudado Diniz na quebra de um acordo fechado em 2005 com o Casino. Diniz e Carrefour, por sua vez, negam ter agido de forma hostil e garantem que o contrato estabelecido há seis anos não tem um termo que proíba conversações e negociações prévias.

Para um grande especialista em varejo, todo este imbróglio sugere uma falta de ética por parte do Pão de Açúcar, explicação que está sendo usada pelo Casino para impedir os acertos em torno da fusão.

O especialista também critica o BNDES por colaborar para o que ele chama de criação de “capitanias hereditárias” no país. Ele explica que, depois da cerveja, da carne, do aço, do cimento e até mesmo da salsicha, o Brasil estaria criando agora um monopólio supermercadista, o que ele considera ruim para consumidores, fornecedores e varejistas de menor porte.

CASINO CONSIDERA PROPOSTA DE DINIZ UMA "EXPROPRIAÇÃO"

jornal Valor Econômico 06/07/2011 - Francisco Góes e Rafael Rosa

O Casino considera uma "expropriação" a proposta de fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour Brasil apresentada pelo empresário Abilio Diniz. "Nesse negócio, não podemos inverter os papéis entre o agressor e o agredido. Somos as vítimas, não fizemos nada", afirmou ontem ao Valor o presidente do Casino, Jean-Charles Naouri.

Em entrevista de cerca de 30 minutos no hotel Copacabana Palace, na zona Sul do Rio, Naouri mostrou aparente tranquilidade, apesar de estar sob pressão desde que Diniz, seu sócio na holding Wilkes, controladora do grupo varejista brasileiro, apresentou oferta de união com o Carrefour.

O executivo francês criticou a proposta, que considerou um erro estratégico por aumentar a participação dos hipermercados no mix da rede de lojas, o que na visão dele vai na contramão da tendência do mercado, que é apostar em unidades menores. Naouri também considera que a associação vai trazer uma "má internacionalização", uma vez que vai concentrar o crescimento na Europa, continente que ainda não se recuperou totalmente da crise econômica de 2008.

Ele não quis dizer se ainda vê condições para continuar sendo sócio de Diniz: "Fiquei surpreso e desapontado pela dissimulação que ele mostrou no decorrer dos últimos meses".

Valor: O senhor manifestou na segunda-feira, em reunião com o BNDES, o desejo claro de exercer o controle do Pão de Açúcar previsto em contrato. Há espaço para antecipar o controle? O seu sócio já sugeriu que antecipar o controle seria uma intenção do Casino.

Jean-Charles Naouri: Em francês, se diz que essa é uma ideia maluca. O contrato não prevê isso. Essa ideia não tem fundamento.

Valor: Há uma decisão tomada pelo Casino de recusar a proposta feita por Diniz? Existe espaço, dentro do acordo de Wilkes, para modificar a proposta, abrindo possibilidade para uma oferta em novos termos?

Naouri: Vim ao Brasil para encontrar o presidente do BNDES, para lhe dizer que o compromisso do Casino é com o Brasil e também com a GPA [Grupo Pão de Açúcar]. Eu lembrei que havíamos investido, desde 1999, mais de US$ 2 bilhões. Investimos essa quantia porque estávamos convencidos de que o Brasil era um Estado de direito, onde os contratos eram respeitados. O segundo investimento que fizemos, em 2005, de US$ 800 milhões, foi feito em grande parte baseado na Carta ao Povo Brasileiro, do presidente [Luiz Inácio Lula da Silva], que falava no respeito aos contratos, que isso era uma pedra fundamental no Brasil. Foram essas mensagens que transmiti ao presidente do BNDES. Disse que a proposta de Abilio Diniz equivalia a uma expropriação, pela diluição que ele impôs ao Casino. Volto a dizer que não é aceitável.

Valor: Por quê?

Naouri: Sobre a substância da proposta, o Casino vai se pronunciar de maneira formal quando tiver a reunião na Wilkes. Mas desde agora o projeto me parece fundado sobre uma visão estratégica errada, pois há duas falhas estratégicas. A primeira é o fato de que uma fusão da GPA com o Carrefour no Brasil aumenta a parte dos hipermercados no mix das lojas, quando todo mundo sabe que os hipermercados são um formato que está declinando e que o formato do futuro são as pequenas lojas. Esse foi exatamente o erro que o Carrefour fez em 2000, quando a empresa, número um do mercado, também fez uma fusão com o número dois da França, a Promodes. Basicamente o projeto era fundado sobre números mirabolantes de sinergia, que se revelaram totalmente falsos. E o Carrefour de hoje em dia, o que não é um segredo para ninguém, está em uma situação difícil. Essa dificuldade provém de o Carrefour ser demasiadamente grande em hipermercados e muito pequeno para os pequenos formatos. Essa estratégia é contrária à do Casino, o que explica o nosso sucesso relativo. Com essa proposta da fusão, vai surgir uma empresa maior, mas de crescimento orgânico menor. O mercado vai levar isso em conta, todo mundo sabe que a relação preço/lucro, a valorização da nova empresa, vai ser penalizada. O segundo erro estratégico é o investimento no Carrefour, que é muito grande na Europa continental, onde o crescimento econômico é fraco ou negativo. É uma internacionalização, mas é a má internacionalização. Se tiver que haver uma internacionalização, tem que ser sobre países de vasto crescimento, que são os países emergentes. Hoje em dia, na distribuição alimentar, as grandes escolhas, não podemos nos enganar, são os pequenos formatos mais que os hipermercados e os países de forte crescimento mais que os países de lento crescimento. O projeto que foi proposto faz uma má escolha nos dois aspectos.

Valor: O Casino poderia combinar sua operação à do Carrefour em outros termos?

Naouri: É uma hipótese sem fundamento.

Valor: Como o senhor vê a argumentação do seu sócio Abilio Diniz de que o Casino só pensa no controle?

Naouri: Já respondi isso de maneira detalhada e estrategicamente. Posso até ser mais detalhado sobre isso. Independentemente do Casino, a proposta está baseada em premissas falsas, onde aumenta o peso dos hipermercados e acrescenta o peso dos países da Europa sobre o mix. É uma engenharia sem visão estratégica.

Valor: O acordo de acionistas na Wilkes permite que os sócios prospectem novos negócios? Caso não exista nenhuma cláusula que impeça isso, em que se baseia a argumentação de violação, de quebra do acordo de acionistas?

Naouri: A arbitragem que lançamos está baseada principalmente no artigo 2.1.1 do acordo de acionistas. O artigo diz que os acionistas não podem tomar ações que resultem na Wilkes perdendo o controle da GPA. O artigo é extremamente claro. O segundo ponto é que no Código Civil brasileiro há a necessidade de agir de boa-fé, o que foi violado por negociações unilaterais, sem autorização da holding. Foram negociações secretas e não houve resposta as nossas muitas perguntas quando elas foram formuladas, oralmente ou por escrito. Em abril, quando vi o senhor Diniz pela última vez, fiquei surpreso pela sua presença em Paris. Eu perguntei a ele se estava havendo negociações, conversas e com quem. Ele respondeu que não tinha nada a me dizer. Então, depois de numerosas discussões entre assessores, tanto antes quanto depois de 22 de maio [data em que o "Journal du Dimanche" publicou que o Carrefour estudava a fusão de sua operação brasileira com o Pão de Açúcar], os conselheiros e o senhor Diniz responderam de maneira repetitiva que não estavam autorizados a falar.

Valor: Foi por essa razão que o senhor não recebeu Abilio Diniz na semana passada quando ele esteve em Paris? Diniz já havia manifestado interesse em modificar os termos do acordo de acionistas assinado em 2006?

Naouri: Eu vi o senhor Diniz muitas vezes no passado, inclusive no começo de 2011. O senhor Diniz e eu tínhamos concordado, no domingo, 26 de junho, de nos encontrarmos no dia 4 de julho. O senhor Diniz me disse que estava muito cansado e estressado e que não estava disponível para me ver antes de 4 de julho. Quando soube que ele estava em Paris na segunda-feira, 27 de junho, fiquei surpreso. Ele me ligou dizendo que estava em Paris e que tinha viajado por ocasião [da reunião] do conselho do Carrefour, que deveria aceitar a proposta. E ele me ligou de forma urgente nessa ocasião para me ver às 7 horas do dia seguinte. Eu considerei que essa maneira de proceder era uma manipulação porque ele havia dito que não estava disponível para me ver antes. Eu nem mesmo tinha conhecimento do documento [com a proposta de fusão], somente pela imprensa. Eu recusei a reunião. Considero que o [o local] normal [de discussão] é o conselho da Wilkes, com base em informações completas e não truncadas. Então, poderemos discutir sem espaço para manipulação.

Valor: O Casino aceitaria diluir sua participação no controle majoritário desde que ficasse garantido que teria a possibilidade de participar da gestão do negócio?

Naouri: Não vamos responder a todas as hipóteses que são lançadas como balão de ensaio pela parte contrária. A nossa linha é governada por dois princípios: o respeito aos contratos e à lei e a definição do melhor plano estratégico no interesse do GPA e dos "stakeholders" [acionistas, fornecedores, clientes e empregados].

Valor: Na segunda-feira foi marcada a reunião do conselho de administração da Wilkes para 2 de agosto. Tudo indica que ambos os lados se preparam para uma continuação da disputa. Como a arbitragem pode demorar um ano ou mais, quais os efeitos do contencioso para o GPA?

Naouri: É uma excelente pergunta porque o mais importante é o desenvolvimento do Pão de Açúcar. Mas nesse negócio não podemos inverter os papéis entre o agressor e o agredido. Nós somos as vítimas, não fizemos nada. O senhor Diniz preparou por longos meses, talvez por anos, um plano visando à nossa expropriação, o que descobrimos em 22 de maio e com mais precisão em 28 de junho. Agimos na defesa de nossos direitos e chamamos a atenção para a tentativa de inverter os papéis entre o agressor e a vítima.

Valor: No início desta entrevista, o senhor disse que, quando Casino decidiu investir no país, o Brasil respeitava contratos. Essa situação mudou? O senhor teme pela segurança jurídica dos investimentos feitos pelo Casino no mercado brasileiro?

Naouri: Nós continuamos confiando no Brasil, ainda esse Brasil marcado pela carta do presidente Lula ao povo brasileiro, sempre colocando à frente o respeito pelos contratos, como elemento essencial do Brasil moderno. É esse Brasil que nós amamos, confiamos e acreditamos. E essa é a razão pela qual nos últimos 15 dias investimos US$ 1,2 bilhão em ações da CBD [Companhia Brasileira de Distribuição, nome Pão de Açúcar na bolsa].

Valor: Na segunda-feira, os minoritários do Carrefour criticaram a falta de dados em relação à proposta do Pão de Açúcar. Como o senhor vê essa questão?

Naouri: Ficaram [os minoritários] surpresos com essa informação dada pelo Carrefour, que tem muitas lacunas. Eu posso somente colocar perguntas: há algum elemento oculto? Se a informação é tão pouco transparente sobre um acordo com a evidência [de uma empresa como] Carrefour, como se explica que essa informação seja dada em conta-gotas?

Valor: Após todo esse contencioso o senhor acredita que ainda existem condições para o Casino continuar sócio de Abilio Diniz?

Naouri: O senhor Diniz foi durante 11 anos um parceiro de qualidade, um gestor competente e um empresário muito apreciado. E posso dizer como amigo também. Fiquei surpreso e desapontado pela dissimulação que ele mostrou no decorrer dos últimos meses, visando a construir um projeto para a expropriação do Casino.

GRUPO CONTRATA LOBISTA PARA GANHAR INFLUÊNCIA

jornal Valor Econômico 06/07/2011 - Adriana Mattos

O Casino tenta recuperar o tempo perdido no campo político e começa a preparar o terreno nessa esfera para que consiga barrar - ou fechar o melhor acordo possível - nas negociações de fusão do grupo Pão de Açúcar com o Carrefour.

A companhia contratou há cerca de 20 dias a empresa Flecha de Lima Relações Institucionais, de Luiz Antonio Flecha de Lima, filho do ex-embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima. Eles devem ajudar o Casino a se articular nas discussões com líderes do governo sobre o caso. "Vamos fazer o trabalho de relação governamental, analisar cenários e tentar entender o posicionamento dos interlocutores nesse caso", conta Fecha de Lima.

Na avaliação de fontes próximas ao Casino, iniciativas em torno de um melhor trânsito na cena política brasileira acabaram ficando em segundo plano nas estratégias da rede no país nos últimos anos. Quem fazia isso, e com propriedade, era o sócio Abilio Diniz, hoje foco de duras críticas da rede francesa, que o acusa de negociar uma fusão sem autorização.

Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o "Conselhão", e candidato do governo petista a ocupar a função de ministro, Diniz representava os interesses dos sócios franceses, que se mantinham à distância desses assuntos.

Nos últimos anos, desde a associação entre Casino e grupo Pão de Açúcar, Abilio Diniz também tomava a frente das decisões estratégicas do grupo e basicamente comunicava o Casino dos passos da empresa. Na união com a Casas Bahia, assim como na compra da cadeia varejista Ponto Frio, Abilio informava o parceiro dos passos que estavam sendo tomados, com rara interferência dos franceses no processo.

A maior preocupação do Casino, em relação a essas decisões estratégicas, estava no nível de endividamento do grupo Pão de Açúcar. O Casino temia que um aumento no nível de alavancagem da empresa no país pudesse pressionar os resultados da companhia francesa. É que o Casino já registra patamar de endividamento considerado alto pelos analistas setoriais.

O jogo mudou e o Casino entende que precisa fortalecer a sua atuação nesse terreno - e acompanhar as movimentações de Diniz no governo - se quiser evitar surpresas no embate político.

A Flecha de Lima tem mantido contato frequente com o comando do Casino, que já contratou José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça, para a disputa no tribunal arbitral da Câmara de Comércio Internacional (IIC, na sigla em inglês) que decidirá a possível fusão da empresa com a rede Carrefour. Já Abilio Diniz contratou Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça do governo Lula, para a disputa arbitral.

A necessidade de ter que buscar melhor retaguarda na esfera política não é algo que está no DNA da rede francesa. O Casino é uma rede extremamente discreta em relação a esse aspecto. A cultura da organização é adotar uma postura de discrição quando decisões de negócios passam pela necessidade de se articular ao lado de governos e partidos políticos.

Em parte, o esforço das empresas em se armar com especialistas e negociadores revela, na avaliação de interlocutores das duas partes, a possibilidade de que as discussões se estendam ao longo do ano. E há sinais mais claros que os embates podem envolver pequenos detalhes.

O Casino tem se movimentado de forma constante para deixar clara a sua insatisfação com a postura adotada por Abilio Diniz de negociar a fusão sem o sinal verde da rede francesa. Um exemplo disso está na forma como tem se posicionado em relação à disputa arbitral na Câmara de Comércio Internacional. O Casino já entrou com dois pedidos de arbitragem contra Diniz - e pode entrar com novos pedidos.

A cada novo fato que envolver algum desrespeito (na visão do grupo francês) ao acordo de acionistas de 2006, assinado entre a rede francesa e Diniz, o Casino deve entrar com representação na Câmara Arbitral. É uma forma de "marcar território" e mostrar que não deixará passar em branco nenhuma movimentação do sócio.

6 de jul. de 2011

ATÉ ASPECTOS CULTURAIS PODEM COMPLICAR FUSÃO "CARREÇÚCAR"

jornal DCI 05/07/2011 - Bruno Cirillo

Novas ameaças rondam o plano de Abílio Diniz de fundir o Grupo Pão de Açúcar (GPA) ao Carrefour. O sócio Casino, cujo presidente, Jean-Charles Naouri, esteve ontem em Brasília, entrou com o segundo pedido de arbitragem contra a proposta de fusão. Também na capital, um grupo de políticos, composto por base aliada e oposição, convidou o presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDES), Luciano Coutinho, a explicar, hoje, a intenção da entidade de emprestar R$ 4,5 bilhões ao negócio.

Os responsáveis pelo requerimento são os senadores Ricardo Ferraço (PMDB-ES) e Álvaro Dias (PSDB-PR). Os parlamentares Acir Gurgacz (PDT-RO) e Ana Amélia (PP-RS) também se posicionaram contra o empréstimo. Enquanto o Legislativo se manifestava, ontem, por outro lado o Poder Executivo declarou, na voz do ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento), que não irá mais comentar o caso.

Se conseguir passar por cima das vozes dissonantes do governo e do próprio sócio, Casino, o empresário Abílio Diniz poderá encontrar novos problemas, lá na frente, quando tiver conquistado sua fusão. O choque entre diferentes culturas de varejo é mais um fator que dificulta e até inviabiliza a união entre as redes de supermercado Carrefour e Pão de Açúcar. Assim pensam especialistas em governança corporativa.

Para o sócio da Mesa Corporate Governance, Luiz Marcatti, os casamentos corporativos são sempre arriscados. "Toda vez que ocorre fusão, as partes se perguntam: qual modelo prevalecerá? Isso, internamente, gera disputa, abrindo conflitos", afirmou o especialista.

No caso do "Carreçúcar", Marcatti observou que há três focos de discórdia em potencial. O primeiro, na cúpula, envolve a nacionalidade das diretorias, que, se fundidas, teriam que se relacionar, numa integração de dirigentes franceses e brasileiros. "O jeito de conduzir os negócios é muito diferente", disse.

O segundo empecilho tem a ver com o tipo de gestão, centralizada numa companhia e descentralizada na outra. "Todo empresário que está a frente do seu negócio [como Abílio Diniz] cria laços com seus executivos. Enquanto numa multinacional [o Carrefour], a relação é diferente", explicou Marcatti.

Os problemas não chegam aos pontos de venda, pois "o jeito de tocar as lojas é parecido", mas afetam os cargos de média gerência e superiores. "O pessoal administrativo sentiria mudanças importantes com a fusão", afirmou o sócio da Mesa Corporate Governance, empresa especializada em due diligence, tipo de auditoria que busca compreender a cultura de uma companhia e prepará-la para fusões.

As divergências culturais, no caso de duas empresas que pretendem se tornar uma só, "ajudam a decretar o fim do processo de fusão", analisou Marcatti. "E um processo de fusão fracassado gera perda para os dois lados", concluiu.

Monopólio

Antes que as questões de cultura empresarial afetem a escalada de Abílio Diniz, barreiras jurídico-econômicas podem impedi-lo de construir o segundo maior império varejista do mundo. Quem acompanha o caso está atento à avaliação do Cade, que determinará se a proposta de fusão é é legal ou não.

"Acho muito pouco provável que o Cade aprove essa operação sem fortes restrições, que quase a inviabilizem", opinou o ex-secretário de Direito Econômico, órgão ligado ao Ministério da Justiça, José del Chiaro. O advogado observou que a concentração de caixas registradoras (levada em consideração pelo Cade) dos supermercados Carrefour e Pão de Açúcar chega a 80% em algumas cidades, como São Paulo.

Del Chiaro estimou que o julgamento do processo de fusão, se for levado adiante no Cade, deve demorar em média dois anos para ser concluído. "Devido ao tamanho do negócio, em qualquer lugar do mundo demoraria isso e haveria fortes restrições", disse o especialista.

Não faltam casos para ilustrar esta possibilidade: a Sadia e a Perdigão ainda enfrentam restrições e exigências do Cade para tornar legítima a fusão BR Foods, que ontem propôs ao órgão antitruste a venda de dez fábricas, dez centros de distribuição e todas as marcas controladas pela companhia - exceto Sadia, Perdigão e submarcas, como Chester e Nuggets. Ainda assim, o Cade pede mais concessões.

O advogado Valdo de Rizzo, especialista em fusões e aquisições, aponta para os problemas mais explícitos que a fusão "Carreçúcar" traria: excessivo poder econômico nas mãos de uma só empresa, perante fornecedores que perderiam poder de negociação; controle de preços, sem ameaça de perder clientes, no que diz respeito ao consumidor; e concorrência desigual.

No Rio Grande do Sul, o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Antônio Longo, declarou-se contra a união entre o Carrefour e o Pão de Açúcar. "Uma empresa com esse gigantismo vai impor preços", advertiu o representante, que teme consequências para o varejo, a indústria e os consumidores.

5 de jul. de 2011

GRUPOS PÃO DE AÇÚCAR E CASINO ARMAM UMA ESTRATÉGIA DE GUERRA

jornal Brasil Econômico 04/07/2011 - Pedro Venceslau

As precauções jurídicas tomadas pelo empresário Abilio Diniz e seu sócio francês, Jean Charles Naouri, do Casino, lembram os lances do famoso jogo de tabuleiro War. Mesmo sem a existência de processos criminais instaurados dos dois lados da trincheira, os desafetos investiram alto para contratar advogados criminalistas que valem por um exército: o ex-ministro da Justiça de Lula, Márcio Thomaz Bastos, do lado de Diniz, e o ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, José Carlos Dias, por Naouri.

“Contratar dois advogados desse porte sem que haja um processo criminal e ostentar isso na imprensa é uma estratégia que me lembra o jogo War. Os dois lados colocam exércitos fortemente armados na fronteira e mandam seus diplomatas tomarem uísque para negociar. Alguém pode dar o primeiro tiro. Ou não”, compara o advogado criminalista Fábio Tofic, do escritório Tofic & Fingermann Advogados.

Notas publicadas na imprensa nos últimos dias reforçam essa metáfora ao relatar que os dois “generais” teriam almoçado em um conhecido restaurante paulista. Enquanto as duas partes não tomama iniciativa de declarar uma guerra jurídica que provavelmente terminaria no Superior Tribunal Federal (STF) ou no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), as declarações públicas dão sinais das estratégias adotadas.

Partiram de Dias as frases mais cortantes, como a que comparou os movimentos de Abilio Diniz a um“golpe de Es- tado corporativo”. Bastos respondeu publicamente. Segundo um experiente advogado que trabalhou com Thomaz Bastos no Ministério da Justiça, a munição verbal escolhida reflete muito mais o estilo dos advogados do que o temperamento dos seus clientes. No meio jurídico, a decisão de contratar dois ex-ministros da Justiça para cuidar do caso tem uma explicação simples: “Em primeiro lugar, o que um ex-ministro escreve é lido com mais atenção e cuidado. Além disso, boa parte das nomeações para os tribunais passa pelo ministro da Justiça”, diz um ex-integrante do primeiro escalão do Ministério da Justiça.

O tabuleiro estratégico está armado. O Casino pode ser acusado de manipular a Bolsa de Valores ao comprar US$ 1 bilhão em ações do Pão de Açúcar. Ao perceber o movimento, o grupo de Abilio Diniz pediu aos acionistas que não vendessem ações da empresa. Naouri também acusa Diniz de ter rompido o acordo de acionistas ao manter negociações “secretas” e “hostis” com o Carrefour.

Para Marcus Elidius, professor-doutor em direito comercial pela PUC-SP, a contratação de dois ex-ministros tem um caráter preventivo para ver se existe concorrência desleal. “Trata-se de um presença justificável, uma vez que é muito provável que o caso termine no STF.” Além da esfera criminal, o professor explica que o processo vai por outro caminho paralelo e obrigatoriamente deverá ser submetido ao Cade. “Durante todo esse processo, o prestígio dos dois advogados vai contar muito”, diz o professor.

Papel de ThomazBastos seria o de defender negócio junto ao governo

Mais do que altamente simbólica para o mundo do direito, a contratação de Márcio Thomaz Bastos é entendida por especialistas como um passo à frente de Abilio Diniz no jogo de xadrez que se tornou a operação de compra do Carrefour.

Com uma batalha envolvendo seu sócio francês em pleno andamento, o empresário teria se adiantado para levar vantagem no duelo. A chegada do ministro da Justiça de Lula — tido como estrategista e com ótimo trânsito político — seria uma forma de já pensar que, depois de resolvido o imbróglio societário, será preciso concentrar-se no embate com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Responsável por julgar negócios que levem à concentração de mercado, o atual perfil do órgão — técnico e composto por jovens — começou a ser desenhado durante a gestão de Bastos, lembra um advogado próximo ao ex-ministro.

“A espinha dorsal do Cade tem muito do Márcio. Sua contratação serve para sinalizar o poder de fogo que Abilio Diniz tem nesse caso. O ex-ministro mescla conhecimentos do sistema antitruste com relações políticas bem costuradas”, diz. Certos dos desdobramentos societários e regulatórios que a operação terá ao longo dos próximos anos, especialistas não creem, porém, que algo relevante ocorra na seara criminal. “Seria uma surpresa.

A não ser que o Casino tenha guardado uma ficha muito forte. Um trunfo do qual ainda não tenha lançado mão”, diz o fundador de uma tradicional banca paulista. Esse advogado entende que Thomaz Bastos foi contratado para defender o negócio no governo. “Bastos tem trânsito livre no governo e também tentará mostrar aos franceses que a participação do BNDES não configura ingerência”, afirma.



Arbitragem polêmica

Instaurado há cerca de um mês, o processo de arbitragem solicitado pela rede varejista francesa para questionar o namoro entre o concorrente Carrefour e Diniz no Brasil ensaia os primeiros passos. O painel será aberto na Câmara Internacional de Comércio, cuja sede fica em Paris. Por tradição, o tribunal analisa os processos previamente para evitar vícios que possam validar a decisão final. Essa primeira fase pode durar seis meses. (Luciano Feltrin)

3 de jul. de 2011

CARREFOUR PODE OFERECER 'PRESENTES' PARA RIVAL

jornal Valor Econômico 01/07/2011 - Daniele Madureira

O francês Carrefour tem consciência de que precisará abrir mão de alguns dos seus ativos no mundo para aplacar a fúria do conterrâneo Casino, sócio de Abilio Diniz na Wilkes, controladora do Pão de Açúcar. Jean-Charles Naouri, presidente do Casino, acabou "esquecido" na discussão do projeto que dá origem ao Novo Pão de Açúcar (NPA), resultado da fusão entre a Companhia Brasileira de Distribuição (CBD) e a filial do Carrefour no país. Naouri vem se mostrando irredutível à ideia de dialogar com Diniz fora do ambiente formal de uma assembleia de acionistas.

Como um bom negociador, o BTG Pactual - que pretende se tornar sócio do NPA e foi responsável por estruturar a proposta de fusão a quatro mãos, com a butique financeira Estáter - sabe que tudo tem seu preço. Segundo apurou o Valor, o banco estuda a oferta de "presentes" do Carrefour para o Casino, como uma espécie de compensação pelos dissabores dos últimos dias.

Os principais ativos à mesa serão as redes do Carrefour em mercados emergentes, como Turquia, Polônia, Indonésia e Taiwan. Vale lembrar que, em novembro, o Casino comprou a operação do Carrefour na Tailândia, por US$ 1,2 bilhão.

O Casino faturou € 29 bilhões em 2010, sendo 62% na França. A expansão da empresa no exterior é tímida: está presente em apenas seis mercados, fora o Brasil (Argentina, Colômbia, Tailândia, Uruguai, Vietnã e Oceano Índico). Nenhum deles expressivo o suficiente.

Já o Carrefour, dono de um faturamento de € 101 bilhões no ano passado, tem operações em 34 países, envolvendo Europa, América Latina e Ásia. De todos os emergentes que poderiam entrar na oferenda, o negócio da Polônia é o mais atraente: faturamento de € 2,2 bilhões no ano passado. Mas o segundo maior faturamento do Carrefour nos mercados emergentes, depois do Brasil (que respondeu por vendas de €12,5 bilhões), é a Argentina: € 3,4 bilhões.

Se nenhuma dessas operações tocar o Casino, é possível que o banco volte suas baterias para a primeira opção que havia estudado: o Dia%. A rede de lojas de bairro, com preços abaixo da média do mercado, que acabou de ter um processo de separação do Carrefour ("spin-off") aprovado, foi o que primeiro veio à mente do BTG para saciar o Casino.

Mas como a assembleia de acionistas do Carrefour, que decidiu pelo "spin-off" do Dia%, aconteceu no último dia 22 - cinco dias antes, portanto, da apresentação da proposta de fusão para os acionistas franceses - a oferta da rede não foi possível. A ideia era acenar para o Casino com a possibilidade de herdar a rede Dia%, criada na Espanha e que vem respondendo por resultados expressivos no Carrefour. É a terceira maior rede de lojas de desconto no mundo e, mesmo antes da decisão do "spin-off", tinha uma gestão independente do Carrefour. Suas vendas giram em torno de € 10 bilhões e tem 6.373 lojas em sete países.

Essa ideia, no entanto, não está completamente descartada. Segundo apurou o Valor, o BTG espera apenas que Diniz vença a resistência do Casino em negociar e que ele faça seus pedidos. O banco vai trabalhar para que a operação saia, testando todas as propostas possíveis.

Mesmo porque, Carrefour e Dia% têm os mesmos acionistas - entre eles, o fundo Blue Capital, com quem Diniz já vinha negociando.

Depois dos sucessivos aumentos de capital no Pão de Açúcar este mês, O Casino anunciou ontem a venda para a Exito, a maior rede varejista de capital aberto da Colômbia, dos supermercados uruguaios Disco e Devoto, por €520 milhões de euros.

1 de jul. de 2011

ABÍLIO CONTRATA EX-MINISTRO THOMAZ BASTOS PARA CASO CARREFOUR

portal Folha Online 30/06/2011

O presidente do Conselho do Pão de Açúcar, Abílio Diniz, contratou o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos para defender a companhia no caso das negociações de fusão com o Carrefour no Brasil. O negócio provocou a "ira" do sócio de Diniz no grupo, o francês Casino, principal rival do Carrefour na França.

O advogado José Carlos Dias, contratado pelo Casino para defendê-lo em eventuais ações criminais, disse à Folha que o plano que Abilio costurou com o Carrefour, o BTG Pactual e o BNDES equivale "a um golpe de Estado".

Para Pimentel, caso Pão de Açúcar virou 'tsunami' em copo de água
BNDES defende presença na união Pão de Açúcar/Carrefour
Carrefour tenta alcançar concorrentes no comércio eletrônico

"Não se pode aceitar o que eu chamo de golpe de Estado corporativo. Fizeram um acordo secreto e estão usando o BNDES para pressionar os franceses", afirma o criminalista, que foi ministro da Justiça no governo de FHC.

Para ele, seria vexaminoso e humilhante para a imagem do Brasil a noção de que o país não respeita contratos.

O acordo de acionistas assinado em 2005 entre Abilio e Casino previa que o grupo francês passaria a controlar o Pão de Açúcar em 2012.

O plano apresentado por Abilio, BTG e BNDES não inclui o Casino na direção dos negócios a partir de 2012.

O advogado diz que não dá para entender as razões que levaram o BNDES a se dispor a investir R$ 3,9 bilhões num negócio que não tem nada a ver com política industrial, seu suposto foco.

A assessoria jurídica da Estáter, que fez o plano de fusão, diz que a acusação de "golpe de Estado" é infundada por duas razões: 1) o acordo de acionistas do Pão de Açúcar com o Casino não proíbe nenhuma das partes de negociar com outros parceiros; 2) a proposta de fusão apresentada anteontem não viola o acordo de acionistas porque precisa ser aprovada pelos órgãos corporativos das empresas.

CASINO CONSOLIDA ATIVOS LATINOS E BRIGA POR CONTROLE NO BRASIL

portal Brasil Econômico 30/06/2011 - Thomas Mulier (Bloomberg News)

O Casino Guichard-Perrachon, segundo maior varejista de alimentos da França, está consolidando seus negócios na América Latina e se armando na luta pelo controle da unidade no Brasil.

A unidade do Casino na Colômbia, chamada de Exito, tem planos de levantar até US$ 1,4 bilhão com a venda de novas ações para financiar sua expansão, disse nesta quinta-feira (30/6) o grupo francês com sede em Saint-Etienne.
A Exito comprará participações majoritárias do Casino nas varejistas uruguaias Disco e Devoto por US$ 746 milhões.

O Casino também comprou uma fatia adicional de 6,2% na Cia. Brasileira de Distribuição Grupo Pão de Açúcar, elevando sua participação no grupo brasileiro para 43,1%. O Casino luta contra a proposta de unir a rede brasileira com as operações do Carrefour SA no País. O grupo francês classificou o plano como "hostil."

"O Casino leva vantagem sobre a proposta de fusão, e eles devem se opor ao fato de o Carrefour assumir o controle da nova empresa que seria criada", escreveu Jean-Marie L'Home, analista da Aurel, em relatório a investidores hoje. O Casino pode assumir o controle do Pão de Açúcar no ano que vem, segundo parte do acordo de acionistas original que criou a parceria.

As ações do Casino fecharam em alta de 0,5%, a € 64,94 em Paris. O Carrefour subiu 0,3%, para € 28,19.

Manter controle

A proposta ameaça a capacidade do Casino de operar no Brasil ao mesmo tempo em que coloca os ativos do Carrefour no País em jogo, o que pode levar o Wal-Mart Stores Inc. a também tentar uma fusão de suas operações com a unidade brasileira do Carrefour, escreveu o analista do Sanford C. Bernstein, Christopher Hogbin, em relatório a investidores hoje. Ele tem recomendação "market-perform" para o Casino.
O Casino, que tem 25% de suas vendas originadas na América Latina, disse que o interesse de seus acionistas "parece ameaçado" pela proposta. O Brasil está entre os países emergentes que ajudam a compensar a queda no lucro em sua unidade francesa.

O Carrefour disse que seu conselho de administração vai analisar a proposta. O conselho se reúne hoje ou amanhã para discutir o assunto, disse hoje o jornal francês Les Echo.

PÃO DE AÇÚCAR PODE LEVAR CASINO A RENEGOCIAR

jornal Folha de S. Paulo 30/06/2011 – Maria Cristina Frias

Diante de tantos obstáculos ao lance surpreendente de Abilio Diniz, empresários e advogados questionavam ontem o real objetivo da proposta de união do Pão de Açúcar com o Carrefour.

Um comentário que circulou ontem no empresariado sustentava que Abilio sabe das dificuldades para ver sua estratégia vencedora e que a operação, na pior hipótese, poderá servir para pressionar o sócio Casino e levá-lo a renegociar, em outras bases, o acordo assinado em 2005.

Além de se comprometer a ceder o controle à rede francesa no ano que vem, Abilio tem compromisso de não concorrência.

Por essa versão, o empresário tentaria convencer o sócio a fazer um novo acordo, sob o argumento de que seria melhor evitar uma longa e desgastante disputa judicial -ainda mais com dinheiro do banco estatal à mesa e tantas dificuldades.

A oferta só tem chance de prosperar se o BNDESPar se dispuser a colocar bilhões de reais -um valor diferente, segundo cada ator da operação. E, no BNDES, diz-se que, se o imbróglio com Casino prosseguir, o banco estatal ficará fora.

Casino, por sua vez, dá mostra de que não aceitará o descumprimento do acordo de acionistas. Há ainda o aumento da concentração com risco de prejuízo a consumidores e a fornecedores.

Até para ser coerente, dado o rigor demonstrado no caso Sadia e Perdigão, o Cade não poderá aprovar a operação, comentava-se ontem em rodas de empresários.

No Pão de Açúcar, pessoas que participam das negociações sustentam que a união das redes dará eficiência ao negócio e melhor preço a consumidores.

"É um ganha-ganha para todos", diz uma pessoa próxima de Abilio.

Quanto ao risco de veto do Cade, um levantamento da empresa mostraria que, das 178 cidades em que Pão de Açúcar e Carrefour estão presentes, apenas em um terço há concentração acima de 30%, "que é o que o Cade não aprova". E isso poderia ser revisto pela companhia.

CASINO CONTRA-ATACA E COMPRA US$ 1 BI EM AÇÕES DO PÃO DE AÇÚCAR

jornal Folha de S. Paulo 30/06/2011 - Toni Sciarretta e Mario Cesar Carvalho


Para fazer frente ao que chamou de "golpe de Estado corporativo", o grupo francês Casino, sócio de Abilio Diniz no comando do Pão de Açúcar, comprou em Bolsa nos últimos dias mais US$ 1 bilhão em ações da rede varejista brasileira e passou a deter mais que o dobro da fatia do empresário na empresa.

A aquisição foi anunciada um dia após Abilio comunicar ao mercado que obteve dinheiro do BNDES e do banco BTG Pactual para levar adiante plano de fusão com o Carrefour no país.

Com a compra de ações, o Casino eleva sua participação de 37% para 43,1% no capital total do grupo Pão de Açúcar, enquanto Abilio se mantém com 21% das ações.

A posição acionária do Casino no Pão de Açúcar se torna tão elevada que, mesmo se a fusão com o Carrefour sair, ele poderá ter influência decisiva na nova empresa.

No desenho original, o Casino teria papel menor que o de Abillio e o do Carrefour.

"GOLPE DE ESTADO"

O advogado José Carlos Dias, contratado pelo Casino para defendê-lo em eventuais ações criminais, disse à Folha que o plano que Abilio costurou com o Carrefour, o BTG Pactual e o BNDES equivale "a um golpe de Estado".

"Não se pode aceitar o que eu chamo de golpe de Estado corporativo. Fizeram um acordo secreto e estão usando o BNDES para pressionar os franceses", afirma o criminalista, que foi ministro da Justiça no governo de FHC.

Para ele, seria vexaminoso e humilhante para a imagem do Brasil a noção de que o país não respeita contratos.

O acordo de acionistas assinado em 2005 entre Abilio e Casino previa que o grupo francês passaria a controlar o Pão de Açúcar em 2012.

O plano apresentado por Abilio, BTG e BNDES não inclui o Casino na direção dos negócios a partir de 2012.

O advogado diz que não dá para entender as razões que levaram o BNDES a se dispor a investir R$ 3,9 bilhões num negócio que não tem nada a ver com política industrial, seu suposto foco.

A assessoria jurídica da Estáter, que fez o plano de fusão, diz que a acusação de "golpe de Estado" é infundada por duas razões:
1) o acordo de acionistas do Pão de Açúcar com o Casino não proíbe nenhuma das partes de negociar com outros parceiros;
2) a proposta de fusão apresentada anteontem não viola o acordo de acionistas porque precisa ser aprovada pelos órgãos corporativos das empresas.

20 de jun. de 2011

COM AQUISIÇÃO DE MAIS AÇÕES, CASINO MANDA RECADO A DINIZ

jornal DCI 17/06/2011 - Gleyma Lima e Agências

Em uma ação de defesa contra as ações do sócio Abílio Diniz no Grupo Pão de Açúcar (GPA), o grupo francês Casino começa a agir para se blindar no mercado brasileiro supermercadista, que faturou R$ 185 bilhões ano passado e no qual o GPA é líder, com participação de R$ 31,6 bilhões. Ontem o grupo francês deu mais um passo para se defender e anunciou ter aumentado sua participação no Pão de Açúcar em 3,3%, chegando agora a 37%, ao investir U$ 363 milhões na operação. Além disso, segundo analistas de varejo, o Casino não descarta a arbitragem internacional caso seja necessário fazer frente à concorrência pelas ações.

Para os especialistas do setor, nessa movimentação há quatro recados para o sócio Abílio Diniz no Grupo GPA: "Não vamos dar o controle da subsidiária brasileira em 2012. Temos mais que um terço das ações. A prioridade é investir e controlar a maior rede supermercadista do Brasil. Podemos aumentar nosso poder de decisão por meio de uma arbitragem internacional. " Tanto que no comunicado os franceses afirmam: "O Casino reitera sua intenção de fortalecer o desenvolvimento de longo prazo do Grupo Pão de Açúcar, bem como a posição do grupo em mercados em rápido crescimento", aponta a rede.

Para o advogado da Demarest e Almeida Advogados, Mário Nogueira, isso sinaliza que pode existir cláusula contratual que dê mais direitos ao Casino. Além disso, a ação coloca o grupo francês com um maior poder de número de ações dentro do GPA no Brasil. "Agora eles possuem mais do que um terço, o que lhes pode dar uma força maior em caso de uma briga judicial, dependendo do que foi acordado entre as partes no contrato", explica. Ele afirma que no futuro esse cálculo do conselho possa dar alguma diferença, o que consequentemente irá beneficiar os franceses na disputa por votos a favor, para futuras decisões. Afinal, o Casino já é visto como o que foi traído pelo Diniz desde que este contatou o Carrefour, principal rival do Casino na França, sem permissão, para discutir uma possível aliança.

Para o professor do Programa de Administração do Varejo (Provar) José Lupoli, o Casino também se mostra empenhado em continuar investindo no Brasil, devido a uma rentabilidade melhor no retorno de investimentos do que a Europa. "Apesar da desaceleração, o nosso País no setor do varejo se mostra muito melhor do que os países europeus e com mais possibilidade de crescimento e retorno rápido", explicou.

Europa

Ainda na França, quem também resolveu se posicionar foi o Carrefour, que deslocou o diretor de suas operações na Europa para a unidade da companhia na capital parisiense, em sua mais recente estratégia para conquistar a confiança de investidores em seu plano de recuperação. O Carrefour, que deve enfrentar investidores em um encontro anual na terça-feira, afirmou - em comunicado - que o veterano na companhia Noel Prioux [posto no comando das operações na Europa apenas um mês antes] agora vai dirigir a unidade da companhia na França. O Carrefour também nomeou Thomas Huebner, suíço que trabalhou no McDonald's e também dirigiu uma série de start-ups do setor de logística, como novo chefe das operações na Europa. O presidente Executivo Lars Olofsson continuará a cuidar dos negócios na França, enquanto Prioux implementa um plano de recuperação para mudar o rumo das operações, afirmou o Carrefour. "A situação na França está difícil e fica cada vez mais", disse um analista, de Paris.

O grupo francês divulgou recentemente planos de transformar a Dia, terceira maior rede de lojas de desconto do mundo, em termos de vendas anuais, e alguns ativos europeus na área imobiliária em companhias separadas e listadas. A listagem da Dia na Bolsa de Madri depende da aprovação dos acionistas em assembléia marcada para o dia 21 e, caso aprovada, deverá ocorrer em 5 de julho.

De acordo com os jornais internacionais, os ativos do Carrefour no Brasil são avaliados entre R$ 11,5 bilhões e R$ 16,5 bilhões. A rede francesa fechou o ano de 2010 com 654 lojas, segundo ranking da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).