jornal Brasil Econômico 06/07/2011 - Françoise Terzian
Acendeu o alerta vermelho dentro do Carrefour Brasil. As duras críticas que Jean-Charles Naouri, presidente e maior acionista individual do grupo Casino, fez ao concorrente francês — que ganharam uma conotação de ameaça ao defini-lo como “cúmplice” da violação de um acordo celebrado com o Pão de Açúcar em2005—foram mal recebidas pela cúpula do Carrefour no país. A declaração soou como um aviso de que o noivado entre o Carrefour e o Pão de Açúcar está fadado ao fim.
Enquanto a troca de farpas estava limitada a Naouri e Abilio Diniz, presidente do conselho do grupo Pão de Açúcar, ainda havia a esperança de que as duas partes poderiamse acertar no final, apesar dos obstáculos. Ontem, no entanto, esta certeza foi reduzida. Se a situação já estava difícil antes, considerar uma fusão neste delicado momento tornou-se algo praticamente impossível.
Os obstáculos que surgem a cada dia, vale lembrar, parecem estar preocupando mais o Carrefour França que a operação brasileira. A cúpula da subsidiária acredita estar apta a seguir sua caminhada sozinha.
Contudo, não é esse o desejo da matriz. Para tentar reverter uma provável “morte anunciada” da fusão, o presidente mundial do Carrefour, Lars Olofsson, pode desembarcar a qualquer momento no Brasil. Comenta-se que ele poderá chegar ao país entre hoje e sexta-feira, embora não exista uma confirmação oficial de sua viagem por parte da companhia.
O que se sabe é que Olofsson precisa vir brevemente ao Brasil se quiser desfazer o mau estar deixado por Naouri após reunião com Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O francês do Carrefour deve seguir agenda parecida com a de Naouri, o que deve incluir uma reunião com Coutinho.
A situação entre as duas redes francesas se agravou depois que o conselho do Carrefour anunciou, na segunda-feira, que aprovava a fusão com o Pão de Açúcar. A declaração só serviu para irritar ainda mais o já enfurecido Naouri.
Em resposta, ontem o Casino soltou um comunicado em que chama a atitude do Carrefour de hostil e critica o fato de que o concorrente, presente no Brasil há anos e ciente do acordo de lealdade mútua com Diniz, vinha conduzindo negociações secretas durante meses, tudo em busca da obtenção do controle da Companhia Brasileira de Distribuição (CBD).
Se o Carrefour não tinha intenções hostis, diz o Casino em comunicado, ele deveria ter sido informado desde o começo e de forma integral das negociações, uma vez que a empresa presidida por Naouri detém o controle conjunto da companhia ao lado de Diniz.
O Casino diz ainda estar confiante de que os tribunais confirmarão sua posição e cita o despacho do presidente do Tribunal de Comércio de Nanterre de 24 de junho, que teria sugerido que o Carrefour teria ajudado Diniz na quebra de um acordo fechado em 2005 com o Casino. Diniz e Carrefour, por sua vez, negam ter agido de forma hostil e garantem que o contrato estabelecido há seis anos não tem um termo que proíba conversações e negociações prévias.
Para um grande especialista em varejo, todo este imbróglio sugere uma falta de ética por parte do Pão de Açúcar, explicação que está sendo usada pelo Casino para impedir os acertos em torno da fusão.
O especialista também critica o BNDES por colaborar para o que ele chama de criação de “capitanias hereditárias” no país. Ele explica que, depois da cerveja, da carne, do aço, do cimento e até mesmo da salsicha, o Brasil estaria criando agora um monopólio supermercadista, o que ele considera ruim para consumidores, fornecedores e varejistas de menor porte.
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