21 de jun. de 2011

INDICADORES DEVEM PIORAR NOS PRÓXIMOS MESES

jornal Valor Econômico 20/06/2011 – Adriana Cotias

Olhando à frente, o cenário é de inadimplência crescente nas carteiras de pessoa física. Segundo o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, o aumento do uso de linhas mais caras, como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial, são indícios de que a qualidade das carteiras tende a piorar. "Não é uma crise, mas uma piora cíclica", diz, arrematando que isso é consequência das medidas de aperto ao crédito, tomadas pelo governo desde dezembro. "Mesmo assim, o impacto sobre a saúde financeira não deve ser grande, porque o nível de alavancagem é bem baixo no Brasil."

Luiz Rabi, gerente de indicadores de mercado da Serasa Experian, estima que os atrasos acima de 90 dias da pessoa física no sistema financeiro fechem o ano na casa dos 7%, ainda bem longe do pico recente, de 8,54%, em maio de 2009, mas consolidando uma tendência que se manifesta levemente desde o início do ano. Pelo indicador da casa, que mede a inadimplência do consumidor baseada não só em dívidas financeiras - englobando também atrasos no pagamento de contas de luz, água e telefone, cartões "private label" (com a marca do lojista), o crediário no varejo e os protestos -, desde o segundo semestre do ano passado havia indicação de que haveria um elo de transmissão para os bancos.



"O que puxou o indicador no ano passado foram as dívidas fora do sistema bancário, mas cedo ou tarde esse comportamento é sentido pelos bancos", diz Rabi. "Há uma cadeia de inadimplência: quando o consumidor começa a ter dificuldade de honrar compromissos, deixa de pagar primeiro o mercado, a conta telefônica, de água e luz, e, só por último, o banco, porque sabe que se não pagar o banco fica sem o cartão de crédito e o cheque especial, o constrangimento é maior."

Thaís Zara, economista-chefe da Rosenberg & Associados, ressalva que atrasos nas contas de concessionárias públicas não necessariamente se revertem em inadimplência financeira porque esse é o tipo de atraso que tem vida curta. Se o consumidor não paga o compromisso fica sem serviços de água, luz e telefone. Como indicador antecedente, ela prefere olhar aquilo que chama de "gestação de inadimplência", dos atrasos nas carteiras entre 15 e 90 dias, mas que ainda não entram na estatística global do BC. De fato, só neste ano, a não pontualidade no pagamento do empréstimo pessoal cresceu 1,1 ponto percentual neste ano, a 4,7%. Na carteira de veículos, essa inadimplência antecedente saltou de 6,3% para 8,1% desde dezembro.

O Banco do Brasil costuma ajustar seus modelos de risco de acordo com as variações do item de devolução de cheques, que aparecem no indicador Serasa, já que quando volta duas vezes por insuficiência de saldo, o correntista perde os limites de crédito no vencimento do contrato e isso acaba se revertendo em inadimplência para o banco também, diz o diretor de crédito da instituição, Walter Malieni.

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