14 de jul. de 2011

FUSÃO DE PÃO DE AÇÚCAR E CARREFOUR É SUSPENSA

jornal Brasil Econômico 13/07/2011 - Cintia Esteves e Françoise Terzian

O jogo pela disputa do controle do Pão de Açúcar, travado entre Abilio Diniz, presidente do conselho do grupo, e o francês Jean-Charles Naouri, presidente do Casino, está longe de acabar. Apesar da suspensão da proposta de fusão pela Gama/BTG Pactual, na noite de ontem, e do veto do conselho de administração do Casino ao negócio, novas rodadas de negociação não estão descartadas.

O que se comenta entre as pessoas próximas da negociação é que a decisão de Diniz e de seus prováveis sócios na empresa que surgiria da fusão, o Novo Pão de Açúcar (NPA), é que o recuo não passa de uma estratégia para esfriar os ânimos dos franceses do Casino e também ganhar tempo para colocar o plano B em ação. Uma das alternativas seria convocar os minoritários ordinaristas para decidir a fusão, uma alternativa considerada pouco provável por advogados, uma vez que a Companhia Brasileira de Distribuição (CBD) teria que provar os conflitos de interesse do Casino.

A reviravolta no caso começou na manhã de ontem, depois que o conselho de administração do Casino vetou unanimemente a fusão, com duras críticas a vários pontos da proposta. A posição do sócio francês de Abilio Diniz preocupou o BNDES, que retirou oficialmente seu apoio de € 2 bilhões à formação do NPA, e levou, propositalmente, a Gama/BTG Pactual a recuar e retirar temporariamente a proposta de fusão apresentada em 28 de junho.

O revés, porém, não fez a família Diniz desistir. Por meio da Península Participações, ela se diz “convencida de que o Conselho de Administração do Casino não analisou devidamente todos os aspectos da proposta”. “A decisão unilateral do Casino é, portanto, profundamente lamentável. Sendo assim, Península declara que continuará atuando no melhor interesse do Pão de Açúcar, a fim de criar valor para todos os seus acionistas”, informa a nota divulgada na noite de ontem.

Para ganhar tempo

Há ainda quem garanta que a decisão dura e irredutível do Casino não passaria de uma estratégia para obter um melhor acordo no caso da fusão. “Não se sabe se o outro está jogando duro só para ganhar mais no acordo”, diz uma fonte próxima das negociações.

Coincidentemente, é hoje que o Grupo Carrefour divulga os resultados de seu balanço do primeiro semestre de 2011. Os números do Brasil devem surpreender mais uma vez e apresentar crescimento considerável como o do primeiro trimestre, quando o país superou até o desempenho da China, com avanço de mais de 12%.

Não se sabe, contudo, se nesta tentativa de negociar a fusão de forma mais discreta e longe dos holofotes, o BNDES volta ao negócio, visto que a atuação do banco foi duramente criticada. Mas, Diniz chegou a afirmar, nos últimos dias, que encontrar bancos privados interessados não seria um desafio. O BTG Pactual, por exemplo, não desistiu de virar sócio na nova empresa.

Basta saber como Diniz convencerá o Casino a mudar de ideia. Ontem, durante a reunião em Paris, Diniz foi rechaçado por Naouri, que apresentou estudos feitos pelos bancos Goldman Sachs, Santander e Merril Lynch, entre outros, demonstrando as desvantagens da transação. Pelas análises, as projeções de sinergia entre as companhias foram superestimadas na proposta preparada por Diniz, que conta com o apoio do BTG Pactual e da consultoria Estáter.

Na análise do Casino e dos bancos, a união entre as companhias formaria um grupo com alta concentração em hipermercados, formato de loja em declínio no mundo todo. No Brasil, a fusão dobraria a participação do grupo neste modelo de ponto de venda, passando de um faturamento de R$ 11 bilhões para R$ 26 bilhões, cerca de 51% do total do segmento de alimentos.

A fusão ainda resultaria em uma aglomeração de lojas em São Paulo e Rio de Janeiro, com cerca de 40% das unidades do grupo presentes na região. Considerando-se apenas os formatos de hipermercado e atacarejo os dois varejistas concentrariam 71% de duas lojas em São Paulo e 43% no Rio de Janeiro.

Outro ponto atacado foi a estratégia de crescimento do Carrefour que concentra lojas em mercados maduros quando o ideal, na visão do Casino, é crescer em países em desenvolvimento. Na proposta de Diniz, Pão de Açúcar e Casino ficariam com 11,7% da operação francesa do Carrefour.

De acordo com o Casino, também não há razões para se comemorar os ganhos que a cooperação entre as empresas deve gerar. Segundo Diniz, a sinergia entre as companhias corresponderia à 3,2%das vendas do grupo. No entanto, durante a reunião, o Casino mostrou uma comparação feita com outras dez fusões semelhantes onde este percentual alcançou uma média de apenas 1%. A consultoria Roland Berger, também contratada por Casino, informou que a sinergia entre as empresas alcançaria, no máximo, 0,8%das vendas consolidadas.

Em nota, Diniz afirmou que “os estudos apresentados na reunião são pouco consistentes e não retratam a realidade do setor de varejo brasileiro e mundial.” Durante o encontro com os franceses, o empresário se absteve da votação. Colaborou Ricardo Rego Monteiro

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